Ricardo
Reis (heterónimo de Fernando Pessoa) oferece-nos uma filosofia de vida influenciada pelo
epicurismo, (a procura do prazer moderado - a única forma de prazer que pode perdurar -, pelo
estoicismo (a possibilidade da felicidade está em viver em conformidade com as leis do destino) e pelo “carpe diem” (aproveita o dia) do poeta romano Horácio.
A questão primordial do sofrimento e da morte encontra resposta na atitude do heterónimo pessoano que:
- Evita as ciladas da Fortuna, presentes nos instintos fortes e nas paixões que prendem o Homem ao transitório, mergulhando-o no sofrimento (para os epicuristas o verdadeiro bem não é o prazer violento, mas o estável, isto é, o que tende para a ausência de dor e de perturbação).
- Procura, como os epicuristas, o repouso e a ataraxia (ausência de perturbação).
- Goza em profundidade o momento presente (carpe diem de Horácio): «Vive com sensatez destilando o teu vinho / e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança»; « trata, pois, de colher o dia de hoje, / que nunca o de amanhã merece confiança».
- Aceita, como os estóicos, voluntariamente um destino involuntário; neste sentido, a liberdade não é outra coisa que não seja o conformar-se com a ordem natural das coisas, com o Destino: «Só esta liberdade nos concedem / Os deuses: submetermo-nos / Ao seu domínio por vontade nossa».
- Valoriza, como os estóicos, o poder da razão, em detrimento da emoção, merecedora de indiferença.
Manual Ser em Português 12.º Ano, Areal Editores, Junho de 2000.
Apesar
da procura do prazer e da felicidade, Reis considera
que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade, ou seja, a
ataraxia (a tranquilidade sem qualquer perturbação). Sente que tem de
viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor e ao
desprazer, numa verdadeira ilusão da felicidade, conseguida pelo esforço
estóico disciplinado.
Ricardo
Reis é, portanto, o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita estoicamente,
com calma lucidez (através do permanente exercício da racionalidade), a
relatividade e a fugacidade de todas as coisas.